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A relação entre indústria e varejo ainda é tratada, em muitas empresas, como um território de pressão, barganha e defesa de interesse imediato. De um lado, a indústria corre para bater meta de sell-in. Do outro, o varejo vive a urgência do sell-out e tenta proteger margem, prazo e caixa. No meio dessa disputa, surgem compras concentradas no fim do mês, excesso e falta de estoque, ruptura, vencimento de produtos e decisões apoiadas em indicadores que parecem eficientes no curto prazo, mas cobram a conta depois.

Esse é o ponto de partida do 13º episódio do Podcast Insights Lean, em que Ricardo Borgatti, sócio-fundador da Borgatti Consulting, conversa com Olegário Araújo, pesquisador da FGV, CEO da Inteligência 360 e curador de eventos do setor, sobre os efeitos de uma relação fragmentada entre indústria e varejo

Desde o início da conversa, o episódio deixa claro que o problema não está apenas na tecnologia disponível, mas na forma como as empresas organizam metas, interpretam dados e conduzem o relacionamento entre áreas e parceiros. Quando falta linguagem comum, sobra distorção.

Inspire-se nesta conversa e veja por que transformar a relação entre indústria e varejo pode ser decisivo para gerar mais valor, previsibilidade e resultado.

Relação indústria e varejo: por que o modelo transacional ainda destrói valor

A lógica transacional ainda domina boa parte das negociações entre indústria e varejo. Nessa lógica, comprar bem significa pagar menos. Vender bem significa fechar volume. O raciocínio parece simples, mas a consequência é complexa: cada lado passa a defender o seu quadrado, sem olhar o efeito final sobre o consumidor, sobre o fluxo de reposição e sobre o resultado do negócio.

Ao longo do episódio, Olegário Araújo mostra que essa abordagem transforma a relação em um jogo de curto prazo. O comprador busca reduzir CMV, alongar prazo e pressionar condições. O vendedor, por sua vez, tenta fechar a meta do mês. A negociação até acontece, mas a construção de valor não avança. Em vez de cooperação, instala-se uma lógica de ganha-perde que enfraquece confiança, previsibilidade e nível de serviço.

A fala que sintetiza esse ponto é direta: “Enquanto o consumidor não comprou, ninguém vendeu.” 

A frase desloca o eixo da conversa. Ela tira a relação da disputa entre comprador e vendedor e recoloca o consumidor no centro. Quando isso não acontece, a cadeia passa a girar em torno de metas locais, e não em torno da demanda real.

Ricardo Borgatti reforça esse desvio ao mostrar que a negociação pontual, sem visão logística, sem leitura de capacidade e sem coordenação entre áreas, pode até produzir um resultado aparente de compra e venda, mas compromete margem, estoque e atendimento no ciclo seguinte. O problema, portanto, não é comercializar. O problema é reduzir a relação indústria e varejo a uma disputa permanente de curto prazo.

O que a relação indústria e varejo perde quando sell-in e sell-out não conversam

Quando a indústria olha para sell-in e o varejo vive o sell-out, a cadeia deixa de responder ao que realmente importa: o consumo na ponta. A partir daí, o abastecimento perde ritmo, a reposição fica distorcida e o planejamento passa a reagir mais ao calendário comercial do que ao comportamento da demanda.

No episódio, Borgatti chama atenção para um ponto recorrente: o consumo acontece todos os dias, mas a compra muitas vezes é concentrada no fim do mês, porque esse momento vira objeto de pressão comercial. O efeito dessa prática é conhecido. Em uma ponta, forma-se estoque desnecessário. Em outra, surgem rupturas, atrasos e oscilações que poderiam ser evitadas com uma lógica mais nivelada de reposição.

Olegário nomeia esse movimento de forma clara ao mencionar o “efeito serrote”. Há momentos de falta, seguidos por momentos de excesso. Isso afeta o caixa, consome espaço em centro de distribuição e em loja, aumenta risco de vencimento e reduz a capacidade de atender bem o cliente. Em setores como o farmacêutico, o impacto é ainda mais sensível, porque produto vencido representa perda financeira e também problema ambiental e social.

O prejuízo, no entanto, não fica restrito ao estoque. Quando o item certo não está disponível, o consumidor não encontra o que procura, perde tempo e sai da loja com uma experiência ruim. Ao mesmo tempo, o produto que gira menos ocupa o espaço que deveria estar dedicado ao item de maior demanda. É assim que uma decisão comercial mal coordenada se transforma em perda de venda, erosão de valor e deterioração da relação entre indústria e varejo.

Dados não bastam: a relação indústria e varejo exige informação compartilhada e leitura de negócio

A conversa entre Borgatti e Olegário avança para um ponto decisivo: dado, por si só, não resolve. A cadeia não melhora apenas porque há mais informação disponível. O ganho aparece quando os dados certos são integrados, lidos em contexto e usados para orientar decisão.

Banco de dados ou “bando de dados”?

Uma das frases mais fortes do episódio surge exatamente nesse momento. Olegário diz: “muitos não têm nem banco de dados, têm um bando de dados.” A expressão resume um problema frequente nas empresas. Há registro de estoque, cobertura, lead time, prazo de pagamento, frequência de compra e giro. Só que essas informações permanecem isoladas em sistemas, áreas e rotinas que não se conectam.

Quando cada área enxerga apenas a sua parte, o dado não vira informação útil para o negócio. Ele vira ruído, ou pior, justificativa para decisões equivocadas. O resultado aparece na operação: compras sem leitura do estoque real, negociações sem noção do impacto financeiro, produção desalinhada com a demanda e ações comerciais que deslocam problema de um ponto para outro, sem resolver a causa.

O ponto central do episódio é que a leitura precisa ser combinada. Não basta saber quantos dias de cobertura existem. É preciso entender o giro, o prazo de pagamento, o lead time real, o comportamento da demanda e o impacto de cada variável no fluxo do negócio. Só então o dado deixa de ser registro e passa a ser instrumento de gestão.

Lead time, cobertura e giro só geram valor quando são lidos em conjunto

Ao tratar do uso da informação, Olegário chama atenção para um detalhe operacional que muitas empresas negligenciam: lead time não é um número fixo que entra no sistema e pode ser esquecido. Ele precisa refletir a realidade do abastecimento. Se a origem muda, se a planta muda, se o CD muda, o impacto no negócio muda junto.

Essa observação é importante porque mostra o limite de qualquer sistema automatizado. Com a base errada, a recomendação também sairá errada. Quando o lead time está desatualizado, a cobertura tende a ser interpretada de forma equivocada. Sem o giro na equação, o estoque fica desbalanceado. Já a falta de leitura do prazo de pagamento pode levar a empresa a comprar antes da hora e comprometer o caixa sem necessidade.

Borgatti reforça esse raciocínio ao destacar que a tecnologia já permite soluções muito melhores de reposição e planejamento, inclusive com mais recursos de inteligência. Ainda assim, a evolução técnica não se converte automaticamente em evolução gerencial. Sem pensamento crítico, sem entendimento do fluxo e sem leitura sistêmica, a tecnologia só acelera o erro.

Indicadores errados, decisões erradas: o efeito das metas fragmentadas na relação indústria e varejo

Poucos pontos do episódio são tão contundentes quanto a crítica aos indicadores que moldam comportamentos ruins. Tanto Borgatti quanto Olegário mostram que parte importante do conflito entre indústria e varejo nasce de metas desenhadas sem visão do todo.

Leia também: Como construir um sistema de indicadores que sustente a Melhoria Contínua na Indústria? 

Quando a meta premia o comportamento errado

No varejo, Olegário cita a margem percentual como exemplo clássico. O comprador recebe uma meta, e a remuneração variável está associada a esse indicador. Diante disso, ele negocia melhores condições no fim do mês, aceita volumes maiores e fecha uma margem aparentemente bonita no papel. Só que a pergunta decisiva permanece sem resposta: a demanda justifica esse volume?

No episódio, esse raciocínio aparece de forma muito concreta. O varejista compra mais para melhorar o indicador, mas não olha o estoque atual, não avalia o giro do item, não considera o vencimento e, em alguns casos, nem verifica se conseguirá pagar antes de o produto girar. O ganho contábil da compra vira, pouco depois, capital parado, risco de desconto forçado e perda de espaço para os itens que realmente vendem.

Do lado da indústria, Borgatti menciona o custo unitário como outro indicador pernicioso. Ao estimular produção acima da demanda para diluir custo fixo, esse modelo alimenta superprodução, gera “lucro no estoque” e mascara a realidade operacional. O resultado pode até parecer positivo no demonstrativo, mas o fluxo de caixa e a aderência à demanda contam outra história.

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Remuneração variável e visão de curto prazo

O episódio vai além da crítica ao indicador e entra no comportamento que ele incentiva. Olegário relata um caso em que havia muito dinheiro empatado em estoque sem giro, com itens parados havia mais de noventa dias. A empresa identificou o excesso, concordou com o diagnóstico, mas travou na hora de agir. O motivo era simples e revelador: desovar o estoque comprometeria a margem percentual e, por consequência, a remuneração do responsável.

A fala é decisiva porque mostra como a meta local altera a lógica da decisão. O que seria correto para a empresa deixa de ser prioridade quando ameaça o bônus individual. A organização passa, então, a conviver com uma perda invisível: dinheiro parado, espaço mal utilizado, deterioração da experiência do cliente e redução de valor para o negócio.

Nesse ponto, o episódio é preciso. Não se trata apenas de erro técnico. Trata-se de um desenho gerencial que premia o comportamento inadequado. Quando metas e incentivos empurram as pessoas para decisões de curto prazo, a cadeia inteira perde coordenação. E, sem coordenação, a relação indústria e varejo vira um ambiente propício à repetição dos mesmos desperdícios.

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Relação indústria e varejo mais madura: o que muda quando a liderança escolhe construir valor em conjunto

Depois do diagnóstico, a conversa aponta uma saída: amadurecer a relação. Isso exige mudança de postura, revisão de metas e uma liderança mais preparada para enxergar curto e longo prazo ao mesmo tempo.

Confiança, transparência e visão de cadeia

Olegário trata confiança como ativo concreto da relação, não como ideia abstrata. Em um trecho importante, ele resume: “Confiança. O que é confiança? Cumprir o que promete.” A frase é simples, mas tem implicação profunda. Quando falta confiança, a parceria não evolui. Se o combinado não é cumprido, a transparência se rompe. Assim, a tecnologia vira apenas uma camada de controle sobre uma relação frágil.

Uma relação mais madura depende da capacidade de expor conflitos reais. Onde está pegando? Onde está doendo? O que impede o avanço dos dois lados? Em vez de empurrar o problema para a operação ou mascará-lo com negociação de fim de mês, as empresas precisam discutir gargalos, limites, oportunidades e responsabilidades de ponta a ponta.

É nesse momento que a visão de cadeia substitui a defesa de interesse local. O foco deixa de ser “o que eu ganho agora” e passa a ser “como geramos mais valor para os dois lados”. Essa mudança altera a qualidade da conversa, melhora a previsibilidade e fortalece o ambiente necessário para decisões mais inteligentes.

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O papel da liderança na mudança de modelo mental

Olegário também traz para o centro a ideia de liderança ambidestra, capaz de equilibrar curto e longo prazo.

No episódio, a mensagem é clara: o que trouxe as empresas até aqui não garante o futuro. O modelo mental que privilegia resposta imediata, pressão comercial e fragmentação já não acompanha a complexidade do mercado. A liderança precisa aceitar que fazer diferente deixou de ser opção. Tornou-se condição para preservar resultado e competitividade.

Borgatti complementa essa visão ao defender uma postura mais adaptativa, aberta a perguntas e menos presa a certezas construídas no passado. Essa mudança de mentalidade não é decorativa. Ela redefine prioridades, reorganiza metas e recoloca o consumidor como referência comum para decisão.

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JBP e tecnologia: caminhos para fortalecer a relação indústria e varejo

O episódio não se limita a criticar o modelo atual. Ele também apresenta caminhos concretos para amadurecer a relação entre indústria e varejo, com destaque para o JBP e para o uso disciplinado da tecnologia.

JBP como plano de negócio conjunto

Ao apresentar o Joint Business Plan, Olegário desloca a relação da negociação pontual para a construção conjunta de valor. A lógica é simples e poderosa: em vez de restringir a conversa a comprador e vendedor, a empresa coloca na mesa áreas como logística, finanças e operação para discutir, com transparência, o que precisa mudar e como cada decisão afeta a cadeia.

Essa abordagem amplia a qualidade do diálogo. O problema deixa de ser tratado como impasse comercial e passa a ser analisado como desafio de negócio. A partir daí, o plano deixa de ser promessa genérica e ganha compromisso, acompanhamento e critérios mais claros de execução.

Olegário ressalta que o JBP funciona justamente porque transforma relacionamento em processo. A confiança não depende apenas de boa vontade. Ela precisa ser sustentada por acordos visíveis, metas compartilhadas e capacidade de monitorar se o combinado está sendo cumprido.

Tecnologia como apoio, não como substituta da gestão

No campo da tecnologia, há reconhecimento de que IA, agentes e plataformas podem apoiar a rotina, dar visibilidade à execução e automatizar atividades parametrizáveis. No entanto, a tecnologia não substitui clareza de processo, qualidade de dados e pensamento crítico.

Olegário é categórico ao dizer que, se entra lixo, sai lixo. A inteligência artificial depende de gente preparada para estruturar a base, revisar parâmetros, compreender o negócio e interpretar o que a ferramenta produz

Borgatti acrescenta outro ponto relevante: muitas pessoas ainda não raciocinam em fluxo e têm dificuldade de descrever processo de forma conectada. Sem essa capacidade, até a construção de bons agentes fica comprometida.

A síntese é objetiva. A tecnologia ajuda muito, mas funciona melhor em ambiente colaborativo, com transparência, governança e processo bem definido. Fora disso, ela tende a acelerar uma operação que já nasce desalinhada.

O futuro da relação indústria e varejo depende menos de pressão e mais de integração

A lição que fica é clara: o maior desafio não está na tecnologia, mas na forma como as empresas lideram, integram áreas e tomam decisões. A fragmentação entre áreas, metas e interesses já não responde à complexidade atual do mercado. Ao mesmo tempo, a velocidade das mudanças encurta o prazo de validade das velhas certezas.

Nesse contexto, a relação indústria e varejo precisa ser reorganizada sobre outra base. Integrar decisões comerciais, operacionais e de abastecimento deixou de ser uma ambição sofisticada. Passou a ser requisito para manter serviço, caixa, margem e capacidade de adaptação.

A centralidade do consumidor aparece, mais uma vez, como referência comum. Quando a cadeia opera orientada pela demanda real, a discussão sobre compra, venda, estoque e reposição ganha coerência. E é justamente aí que surge a oportunidade de ganho mútuo: não pela pressão de um lado sobre o outro, mas pela construção de um fluxo mais previsível, mais inteligente e mais aderente ao negócio.

Da pressão comercial à construção de valor: o que precisa mudar agora

O 13º episódio do Podcast Insights Lean mostra, com clareza, que a relação indústria e varejo deixa de destruir valor quando abandona a lógica de pressão comercial e passa a se organizar em torno de demanda, informação, confiança e coordenação entre áreas. Existe tecnologia disponível, assim como método e experiência prática. O que ainda falta, em muitos casos, é coragem para rever indicadores, maturidade para discutir conflito com transparência e disposição para construir uma linguagem comum.

No fim das contas, o desafio é menos técnico do que cultural e gerencial. Quando metas comerciais, compras, abastecimento, operação e finanças seguem trajetórias desconectadas, a empresa gera lucro aparente e prejuízo invisível. Quando essas decisões passam a conversar, o resultado melhora para o negócio e para o cliente final.

Conte com a Borgatti Consulting para transformar a relação entre indústria e varejo

Se a sua empresa enfrenta conflitos entre metas comerciais, excesso ou falta de estoque, baixa integração entre áreas e dificuldade para alinhar indústria, varejo e demanda real, a Borgatti Consulting pode ajudar a estruturar essa transformação. Com abordagem sistêmica, visão de cadeia e foco em geração de valor, podemos apoiar sua empresa na construção de operações mais integradas, previsíveis e orientadas por resultado. Entre em contato para entender como avançar com mais consistência.

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