O tamanho de lote na indústria define quanto será produzido em cada lote e influencia a frequência de setups, análises e documentações, além dos impactos sobre estoques, lead time e capacidade da operação. À primeira vista, aumentar essa quantidade pode parecer uma decisão eficiente: se um setup exige tempo, uma análise consome recursos e cada lote demanda documentação, produzir mais em cada lote tende a reduzir a frequência dessas atividades.
É justamente aí que surge uma questão importante para a liderança. Economizar em uma etapa significa, necessariamente, melhorar o resultado da empresa?
Essa reflexão orientou a palestra “O Custo Invisível do Lote Grande: como a otimização local esconde perdas sistêmicas”, apresentada por Lourenço Teodoro, consultor sênior da Borgatti Consulting, no Connect Farma 360º, realizado em Anápolis (GO). O encontro teve como tema “Scale-up Farmacêutico na Prática” e discutiu a evolução da bancada à alta performance industrial. Na apresentação, Lourenço levou a discussão sobre escalonamento para além da produtividade de um equipamento ou do custo de uma atividade, conectando fluxo, estoques, capacidade e resultado financeiro em uma mesma análise.
A abordagem também se conecta à discussão presente no livro “Finanças para Operações Enxutas: Lean Accounting”, de Ricardo Borgatti, Roberto Aguiari e José E. Balian. Conforme explicado por Lourenço, a palestra utilizou a discussão relacionada a tamanho dos lotes, custos e lucro.
O ponto não é defender lotes grandes ou pequenos de forma genérica. A questão é outra: quais consequências a empresa considera quando decide o tamanho de seus lotes?
Lotes maiores realmente significam uma operação mais eficiente?
O raciocínio favorável ao lote grande parece bastante objetivo. Se a empresa precisa parar um equipamento para realizar setup, aumentar o volume produzido entre duas trocas reduz a frequência dessa atividade. Uma lógica semelhante pode ser aplicada às análises e documentações associadas aos lotes.
Na apresentação, Lourenço Teodoro ilustra exatamente essa percepção. Um lote de 10 mil unidades pode demandar uma análise, enquanto dez lotes de mil unidades demandariam dez análises. O mesmo exemplo é aplicado a setups e ordens de produção. Por essa ótica, lotes maiores economizam custos analíticos, setups e documentações e podem aparentar aumento de produtividade. A própria apresentação coloca “aumentam” entre aspas ao tratar dessa produtividade.
O ganho local existe e precisa ser considerado. O problema começa quando a análise termina nele.
Uma operação industrial não é formada por recursos independentes. O que acontece em uma etapa repercute nas demais. Uma decisão que reduz a quantidade de setups de determinado equipamento pode produzir efeitos sobre materiais, estoques, capacidade, armazenagem e tempo de atravessamento do fluxo.
Para CEOs, diretores industriais e lideranças de Operações, portanto, a pergunta precisa avançar: Quanto a operação economiza naquela etapa e quanto passa a perder no sistema como um todo?
Otimizar o custo ou a produtividade de uma atividade não garante, por si só, um resultado global melhor.
O custo invisível do tamanho de lote na indústria
Quando a análise sai do recurso isolado e percorre o fluxo, aparecem outros efeitos do lote grande.
Na apresentação, Lourenço Teodoro destaca que lotes maiores podem:
- Consumir mais matéria-prima;
- Consumir mais tempo de ciclo;
- Aumentar o Work in Process (WIP);
- Elevar o lead time (LT);
- Aumentar os estoques de produtos acabados.
Na discussão, Lourenço também chama atenção para outros possíveis efeitos, como perdas de qualidade, aumento das áreas de armazenagem e perdas de transporte.
O que WIP e lead time revelam sobre essa decisão?
WIP é o estoque que permanece em processo, enquanto o lead time representa o tempo necessário para o produto atravessar o fluxo considerado. A relação entre essas variáveis aparece na apresentação por meio da Lei de Little, expressa como: LT = WIP / Tx em que LT representa lead time, WIP o estoque em processo e Tx a taxa de saída.
Não é necessário transformar a decisão sobre lotes em uma discussão matemática para compreender a implicação gerencial. Quando mais material permanece no sistema, esse estoque em processo passa a fazer parte da dinâmica do fluxo.
A apresentação também relaciona o estoque necessário de ciclo à demanda diária multiplicada pelo tempo de reposição. Assim, o impacto do lote não termina quando uma máquina conclui sua atividade. Ele continua aparecendo ao longo da operação, seja como material em processo, seja como produto acabado aguardando consumo.
É nesse ponto que uma economia facilmente percebida em setups ou análises pode conviver com perdas menos evidentes no restante do sistema.
Leia também: Lean e a Lei de Little: Entenda a relação entre lead time e WIP!
Quando o lote grande começa a afetar a lucratividade
Para a alta liderança, a discussão ganha outra dimensão quando os efeitos operacionais chegam ao caixa.
A apresentação de Lourenço conecta os estoques ao ciclo operacional, ao ciclo econômico, ao ciclo de caixa e à Necessidade de Capital de Giro (NCG). No mesmo raciocínio, aponta impactos associados aos lotes grandes:
- Perda de capacidade;
- Maior custo de armazenagem;
- Menor flexibilidade;
- Ocultação de problemas de qualidade;
- Risco de obsolescência.
A mensagem apresentada é direta: esses efeitos podem contribuir para a redução da lucratividade.
Essa análise ajuda a explicar por que reduzir determinados custos locais não significa necessariamente aumentar o lucro. A empresa pode economizar setups, análises ou outras atividades e, simultaneamente, manter mais recursos financeiros comprometidos com estoques, ampliar custos de armazenagem e assumir maior exposição à obsolescência.
E o que muda quando a decisão envolve a compra de materiais?
No caso específico da compra de materiais, Lourenço também chama atenção para a lógica de que “lotes maiores são mais baratos”, associada ao conceito de economia de escala. É nesse contexto específico que entra a questão da recuperação tributária.
Esse ponto não deve ser confundido com os demais efeitos do lote de produção. Trata-se de uma consideração relacionada à compra de materiais e à análise dos custos associados.
A apresentação recomenda analisar estrategicamente essa relação considerando o TCA — Custo Total de Aquisição/Produção.
A questão central permanece: uma decisão operacional não deve ser avaliada apenas pelo custo que reduz localmente, mas pelo resultado que gera para o negócio.
Lote Econômico de Produção: por que a decisão exige uma visão mais ampla?
Uma das referências apresentadas por Lourenço para discutir o dimensionamento dos lotes é o Lote Econômico de Produção (LEP/EOQ).
O modelo procura encontrar uma quantidade que equilibre o custo de pedido ou setup e o custo de carregamento do estoque. Na apresentação, o LEP é caracterizado como uma solução simples, orientada à otimização financeira e ao equilíbrio entre esses custos.
O próprio material, porém, apresenta ressalvas para sua utilização. Entre elas estão o contexto de pouca variedade e variáveis existente quando o modelo foi desenvolvido, a ausência de múltiplas estações de trabalho na formulação apresentada e a consideração do custo por absorção.
A palestra também traz a contestação de Wallace J. Hopp e Mark L. Spearman, citando o livro “A Ciência da Fábrica”. Segundo o material apresentado, os autores argumentam que a fórmula pode ser enganosa e levar a lotes maiores do que o necessário.
Isso não significa que a discussão se encerre descartando uma fórmula. O ponto é que uma fórmula isolada não representa todas as relações existentes em um sistema produtivo.
Demanda, equipamentos, rotas, estoques e características técnicas continuam fazendo parte da decisão.
Tamanho de lote na indústria: como definir uma quantidade adequada?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda a discussão — e a apresentação não propõe uma resposta única.
O tamanho adequado depende de diferentes fatores.
Lourenço parte da demanda e avança até aspectos relacionados às estratégias de aquisição e utilização dos equipamentos.
Entre os elementos apresentados estão:
- Demanda do produto;
- Velocidade de consumo do estoque;
- Capacidade dos equipamentos;
- Definição das rotas produtivas;
- Competição pelos equipamentos;
- Características da formulação e do desenvolvimento do produto;
- Limitações técnicas;
- Estratégia de aquisição e utilização dos equipamentos.
A demanda precisa participar da decisão
Um produto de alta demanda pode admitir um lote maior. A razão apresentada é objetiva: quando a demanda é elevada, o consumo do estoque tende a ser mais rápido e seu giro, maior.
A apresentação também sugere direcionar rotas de produtos com maior demanda para equipamentos de maior capacidade e, quando possível, dedicar algumas rotas aos produtos de maior volume para reduzir a competição pelo equipamento e obter ganho de padronização.
O cenário muda quando uma limitação técnica obriga a operação a trabalhar com um lote superior à demanda. Por isso, Lourenço também chama atenção para a estratégia de desenvolvimento do produto e para formulações adequadas, evitando que características técnicas imponham lotes maiores do que a necessidade real.
Essa diferença é decisiva. Não existe um tamanho de lote adequado desconectado da demanda e das características reais da operação.
Tamanho de lote na indústria: o risco de olhar apenas para o custo unitário
Outro ponto central da palestra está na forma como a empresa interpreta o custo do produto.
O material apresentado por Lourenço alerta para o uso do rateio e do custeio por absorção na tomada de decisão. Segundo a apresentação, a prática do rateio pode induzir a produção de lotes maiores para diluir custos e gerar, erroneamente, uma percepção de aumento do lucro.
Na lógica apresentada, o custo do produto deve considerar os gastos variáveis, como insumos, impostos, comissões e frete. As demais despesas operacionais e administrativas são tratadas como encargos da estrutura da empresa, e não do produto.
É nesse contexto que a apresentação traz uma provocação de Roberto Aguiari:
“Os modelos de apuração tradicional levam a crer que produzir é mais importante do que vender.”
A frase sintetiza um risco relevante para a liderança: produzir mais para melhorar um indicador contábil não significa necessariamente gerar mais resultado para a empresa.
Essa discussão é aprofundada no livro Finanças para Operações Enxutas: Lean Accounting, que aborda a relação entre decisões operacionais e resultados financeiros.

Otimização local ou resultado global: qual decisão sua operação está tomando?
O problema não está simplesmente em trabalhar com um lote grande ou pequeno. A questão está em como a empresa define o tamanho de lote na indústria e quais consequências entram nessa análise.
Um lote maior pode reduzir setups, análises e documentações. Ao mesmo tempo, seus efeitos podem aparecer no WIP, lead time, estoque de produto acabado, capacidade, armazenagem, flexibilidade, capital investido e risco de obsolescência.
Olhar apenas para o primeiro grupo significa avaliar uma parte da decisão. Olhar para os dois significa começar a compreender seu impacto sistêmico.
Essa é uma das bases da visão de Operações de Alta Performance apresentada pela Borgatti Consulting: combinar Ciências das Operações e Lean Demand Driven com visão financeira de negócio. A própria apresentação de Lourenço posiciona essa integração como parte da especialização da consultoria.
Traduzir decisões operacionais em ganhos financeiros reais exige essa mudança de perspectiva. A análise não deve se limitar a demonstrar que determinada máquina produziu mais ou que um custo unitário caiu. O desafio é entender se aquela decisão contribuiu para melhorar o desempenho da operação e do negócio.
Eficiência local só gera valor quando contribui para o desempenho global.
Como a Borgatti Consulting apoia essa análise sobre o tamanho de lote na indústria
Definir o tamanho dos lotes a partir de uma visão sistêmica exige enxergar relações que ultrapassam um equipamento ou uma etapa produtiva.
A Borgatti Consulting atua na estruturação de Operações de Alta Performance, conectando a dinâmica dos fluxos produtivos à demanda e aos resultados do negócio. Dentro dessa abordagem, a análise pode envolver:
- Fluxos produtivos;
- Capacidade;
- WIP e lead time;
- Estoques;
- Demanda;
- Perdas sistêmicas;
- Impactos financeiros das decisões operacionais.
Essa visão permite deslocar a discussão de “quanto conseguimos produzir por lote?” para uma pergunta mais relevante: “qual decisão contribui para o melhor resultado da operação como um todo?”
A abordagem da Borgatti Consulting integra Ciências das Operações, Lean Demand Driven e visão financeira de negócio, exatamente para que decisões sobre produção, capacidade, fluxo e estoques não sejam conduzidas de maneira isolada.
Conclusão: seu lote está reduzindo custos ou apenas transferindo perdas?
Lotes maiores podem reduzir a frequência de setups, análises e documentações. Esses ganhos existem e devem fazer parte da avaliação. Eles não são suficientes, porém, para concluir que um lote maior será mais eficiente ou mais lucrativo para a empresa.
A decisão também precisa considerar demanda, WIP, lead time, estoques, capacidade, flexibilidade, riscos, capital investido e impactos financeiros.
É justamente quando essas variáveis entram na mesma análise que a liderança consegue sair da otimização de uma atividade e avaliar o efeito da decisão sobre o sistema.
O tamanho de lote adequado não é aquele que simplesmente maximiza a produtividade de um recurso. É aquele que faz sentido para a demanda, para o fluxo e para o resultado do negócio.

Transforme decisões operacionais em resultados para o negócio
Se sua operação produz em grandes lotes para reduzir custos, mas continua convivendo com estoques elevados, lead times longos, pressão sobre a capacidade ou capital comprometido, vale questionar se os ganhos locais estão realmente chegando ao resultado da empresa.
A Borgatti Consulting apoia organizações na estruturação de Operações de Alta Performance, integrando demanda, capacidade, fluxo, estoques e visão financeira para identificar perdas sistêmicas e orientar decisões que contribuam para o desempenho global.
Fale com um de nossos especialistas e entenda como a Borgatti pode apoiar sua empresa na construção de uma operação mais integrada, responsiva e orientada a resultados.
Quer aprofundar especificamente a relação entre decisões operacionais, custos e resultados financeiros? Conheça o livro “Finanças para Operações Enxutas: Lean Accounting”.
FAQ: tamanho de lote na indústria, custos e resultados
O que é tamanho de lote na indústria?
Tamanho de lote na indústria é a quantidade produzida ou processada em uma mesma ordem ou ciclo produtivo. Sua definição influencia a frequência de setups, análises e documentações, mas também pode produzir efeitos sobre WIP, lead time, estoques, capacidade e custos.
Por isso, avaliar o tamanho de um lote apenas pela produtividade de um recurso ou pelo custo de uma atividade oferece uma visão incompleta da decisão.
Lotes maiores sempre reduzem custos?
Não é possível concluir que lotes maiores sempre reduzem o custo global da operação. A apresentação de Lourenço mostra que eles podem economizar setups, custos analíticos e documentações, mas também aumentar WIP, lead time e estoques de produtos acabados.
A análise precisa considerar os ganhos e as consequências da decisão ao longo do sistema.
Por que lotes grandes podem aumentar o WIP e o lead time?
Lotes maiores colocam mais material em processo e podem elevar o WIP. Na apresentação, Lourenço relaciona WIP, taxa de saída e lead time por meio da Lei de Little.
O efeito precisa ser analisado no fluxo como um todo, e não somente no recurso em que o lote é produzido.
Saiba mais: Lean e a Lei de Little: Entenda a relação entre lead time e WIP!
Como o tamanho dos lotes pode afetar a lucratividade?
O impacto financeiro pode aparecer por meio do custo de armazenagem, do capital investido, do risco de obsolescência e de outros efeitos da operação. A apresentação também relaciona estoques ao ciclo de caixa e à necessidade de capital de giro.
Assim, uma economia local pode coexistir com consequências financeiras em outras partes do sistema.
Qual é o tamanho de lote ideal para uma operação industrial?
Não existe um tamanho único adequado para todos os produtos e operações. Segundo a abordagem apresentada por Lourenço, a decisão depende de fatores que começam na demanda e chegam às estratégias relacionadas aos equipamentos.
Demanda, giro do estoque, capacidade, rotas produtivas, competição pelos equipamentos, formulação, limitações técnicas e estratégia de utilização dos recursos precisam entrar na análise.
Produtos de alta demanda podem trabalhar com lotes maiores?
Sim, a apresentação indica que produtos de alta demanda podem admitir lotes maiores, pois o consumo do estoque é mais rápido e o giro é alto.
Isso não transforma lote grande em uma regra. A decisão continua dependendo das características do produto e da operação.
O que é Lote Econômico de Produção (LEP/EOQ)?
O LEP/EOQ é um modelo que busca equilibrar custos de pedido ou setup e custos de carregamento de estoque. Na apresentação, ele é descrito como uma solução simples e de otimização financeira.
Lourenço também aponta limitações para sua aplicação em operações mais complexas, entre elas a ausência de múltiplas estações de trabalho e as características do contexto em que o modelo foi desenvolvido.
Por que o custo unitário pode levar a decisões equivocadas sobre lotes?
Porque a diluição de custos pode criar a percepção de que produzir lotes maiores aumenta o lucro. A apresentação alerta que o rateio e o custeio por absorção podem induzir esse comportamento.
Por isso, a decisão precisa considerar os impactos financeiros da operação de maneira mais ampla, e não apenas a redução aparente do custo do produto.
O que Lean Accounting tem a ver com tamanho de lote?
A conexão está na forma de avaliar financeiramente as decisões operacionais. No conteúdo apresentado por Lourenço, a discussão sobre lotes questiona decisões orientadas apenas por rateios e custos locais e direciona a análise para seus efeitos sobre a operação e o resultado.
Esse tema é aprofundado no livro “Finanças para Operações Enxutas: Lean Accounting”.
Como saber se um lote grande está gerando eficiência local, mas prejudicando a operação?
A análise precisa ir além da redução de setups ou do aumento aparente de produtividade. WIP, lead time, estoques, capacidade, flexibilidade, armazenagem, capital investido e obsolescência estão entre os elementos que ajudam a ampliar essa leitura.
Quando a decisão parece positiva em um recurso, mas seus efeitos prejudicam outras partes do fluxo ou o resultado financeiro, a liderança precisa avaliar o lote sob uma perspectiva sistêmica.




